segunda-feira, 20 de abril de 2009

Poesias que se transformam em rimas

A rapper Tiely Queen é uma das mais respeitadas dentro do movimento hip hop, em São Paulo. Persistente, adora o que faz: ARTE. “Valorizo e respeito o trabalho das pessoas que contribuem para tornar a cultura de rua mais forte”. Nesta entrevista, ela fala sobre a participação no documentário “Guerreiras do Brasil”, do projeto Mulheres do hip hop cantam a realidade e sobre as mudanças do papel da mulher dentro do movimento cultural.

Como e quando você começou a se interessar pela cultura hip hop?
Tiely Queen
: Aos 11 comecei a escrever poesias, mas gostava muito de assistir clipes musicais na TV. E as músicas que meus irmãos mais ouviam eram os sucessos de soul, black e disco da época. Ouvia as músicas de Queen Latifah, Public Enemy e por aí vai...Mas quando vi o Thaíde rimando ao som das instrumentais dessas músicas que o DJ Hum tocava, achei maravilhoso e percebi que também poderia fazer o mesmo com minhas poesias. A partir daí iniciei na cultura HIP HOP, no final da década de 1980.


Você nasceu na zona leste, na sua avaliação qual é o impacto social/cultural que esse tipo de encontro traz para comunidade?
TQ:
O Hip Hop nasceu nos guetos. Nas periferias marginalizadas da Jamaica migrando para as periferias dos Estados Unidos, e assim foi em todas as periferias do mundo. O maior impacto é mostrar pra sociedade (que não dá vez para quem quer mostrar sua luta e talento) que a periferia tem voz ativa. Produz cultura e é fortalecida com esse produto cultural. Criando autoestima e fazendo as pessoas buscarem suas raízes e direitos.

Como nasceu o Projeto Mulheres do Hip Hop Cantam as Realidades?
T.Q:
Nasceu da necessidade de mostrar todo o conteúdo cultural, político e social produzido pelas mulheres dentro da Cultura Hip Hop. Em 2007 foi aprovado o projeto "Mulheres do Hip Hop Cantam as Realidades" pela Secretaria do Estado da Cultura através do PAC HIP HOP. E com isso, produzimos o CD Realidades, unindo 14 grupos de rap formados por mulheres de várias cidades do estado de São Paulo. Daí, o nome "HIP HOP MULHER".

Como a mulher é tratada dentro do movimento hip hop?
T.Q:
No começo era tratada como homem. A rapper tinha que se vestir e cantar como homem. Por ser um movimento muito masculino, eles pensavam que o único papel que nos restava era cuidar da casa e segurar os filhos durante os shows. Mas aos poucos isso vem mudando. Isso, também, porque a mulher aprendeu a se posicionar e a impor respeito. A rapper enfrenta uma tripla jornada, muitas cuidam da casa, estudam ou trabalham e ainda encontram tempo para fazer suas rimas. A hipocrisia dentro do movimento está acabando de forma gradativa. Hoje existe muito homem que segura o filho enquanto a mulher canta.

Como foi participar do documentário Guerreiras do Brasil?
T.Q:
O documentário Guerreiras do Brasil surgiu como o registro do encontro de várias rappers em uma ilha no Rio de Janeiro para discutir a questão da violência doméstica. Foi um marco muito importante dentro do hip hop porque tive a possibilidade que conhecer mulheres de vários lugares que produzem cultura de forma séria, inteligente e criativa. Apesar das dificuldades impostas pela realidade, na vida de todas as rappers. Eu adorei ter participado e contribuído na produção do CD Mulheres do hip hop pelo fim da violência contra mulher que foi um dos resultados desse encontro histórico.

De que forma o movimento hip hop contribui para o debate e pode contribuir com a mobilização para essa causa?
T.Q:
De várias formas. Basta nos dar espaço e condições para desenvolvermos nossos projetos de cultura de rua e hip hop que a quantidade de pessoas beneficiadas é imensa. Só a mulher, por exemplo, traz para dentro do movimento todos e todas que estão a sua volta, atinge pessoas e as transforma. Ajudando na formação dos filhos, sobrinhos, e por aí vai.

Qual é a contribuição da cultura hip hop na construção da cidadania de crianças e adolescentes, principalmente, da periferia?
T.Q: Formando, ensinando novas formas de produzir arte. Buscando a juventude para discutir sua realidade de forma criativa. A música prende a atenção e multiplica pensamentos. A dança trabalha o corpo, ajudando na preservação da saúde. A pintura aguça o olhar, a criatividade.
A rima propõe uma construção de idéias de forma rápida e ajuda no desenvolvimento do senso crítico. Assim os quatro elementos (DJ, BREAK DANCE, GRAFITE, RAP) contribuem na construção da cidadania de milhares de jovens.

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